Três perguntas a Gustavo Cardoso (Excerto de reportagem no jornal PUBLICO sobre a INTERNET, 15 de Abril) Num mundo sem Internet, aquilo que se faz no Hi5 aconteceria O Hi5 ou o MySpace servem, essencialmente para prolongar as relações que já existem no dia-a-dia, fora da Internet, diz este professor do departamento de Tecnologias da Informação do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). Estas são apenas formas de as manter mais activas, defende. Gustavo Cardoso, 36 anos, foi um dos coordenadores de um inquérito sobre utilização da Internet em Portugal, realizado em 2003 (A Sociedade em Rede em Portugal, editado pela Campo das Letras no ano passado). Em Junho, terminará um novo estudo. Porque é que a chamada web social, apontada como o novo fenómeno da Internet, e, concretizando, sites como o MySpace e o Hi5, se tornaram tão populares entre os adolescentes? GC: O fenómeno não é novo. O que acontece é que existe um software que permite a incorporação de várias práticas que os adolescentes já faziam no quadro da Internet anteriormente. Ou seja: o chat, os downloads de música, conversar com amigos ou procurar ajuda de outras pessoas quando se está mais em baixo. A novidade é a concentração sobre um mesmo suporte. Antes da Internet, não se faziam downloads, não se comunicava tanto textualmente. Por exemplo, namorar: namorava-se ao telefone. Agora namora-se ao telefone, namora-se presencialmente, namora-se utilizando um chat ou outro programa de texto... No fundo, este tipo de software vem facilitar a vida. Num mundo sem Internet, aquilo que as pessoas fazem no Hi5, na maior parte dos casos, aconteceria, só que mais lentamente, de uma forma mais esporádica, envolvendo um menor número de pessoas. Como caracteriza o tipo de relações que se estabelecem nesses sites? GC: Dependem muito das redes de sociabilidade que já existem. Uma das coisas que sabemos é que a Internet produz, em termos dos relacionamentos, um fenónemo de multiplicação. Em dois sentidos. Por um lado, temos os relacionamentos concebidos fora da Internet, ou seja, os amigos da escola, das férias, etc, e a Internet permite-nos multiplicar a intensidade desse contacto. Por outro lado, multiplicamos também os contactos "fracos" - por exemplo, alguém que nós sabemos que conhece outra pessoa a quem precisamos de solicitar alguma coisa. Mas isto não é tão diferente daquilo que acontece quando se sai com um grupo de amigos e se encontra outro amigo que, por sua vez, tem um amigo. Todos os estudos sobre interacção na Internet demonstram que, na maior parte dos casos, ela acontece entre pessoas que já se conhecem fora do seu contexto. A Internet é usada como uma forma de manter activas as formas de relacionamento. Há a percepção de que as novas gerações "trabalham mais" para fazer amigos e que os sinais disso são a omnipresença dos telemóveis, a troca de sms, os chats. Concorda? GC: Não, sinceramente. Acho que isso é ter a noção da paisagem sem perceber o que está por detrás dela. Mandam-se mensagens sms nas aulas, mas mandavam-se papelinhos antigamente. As coisas não são tão diferentes assim. Anteriormente, também havia muitos factores que determinavam a associação a um grupo: jogar bem futebol ou não, vestir a roupa tal, ter um ar esquisito ou não... Todas aquelas coisas que, à partida, associam os mais novos a um grupo continuam a ser verdadeiras. K.G.